Ciro Gomes fala aos dirigentes do PSB e jornalistas do Acre

Divulgação

Rio Branco/AC – 24-Abr-2009

Ciro Gomes também afirma que derrota de Tião Viana na disputa pelo Senado foi um prejuízo para o país

 

Um bandido está sendo linchado por um crime qualquer. No meio da turba enfurecida, homens, mulheres e crianças – todos querem participar da sova ao desgraçado. Entre os linchadores, está uma senhora mãe de família, com seus cabelos brancos, e pouco afeita à violência. Ela não quer matar nem esquartejar o bandido; quer apenas, ante a indignação geral em relação à violência proporcionada pela bandidagem, aplicar uns petelecos naquele traste. Este é, aliás, o comportamento da grande maioria dos envolvidos no linchamento.
O problema é que, apesar disso, instantes depois, o que deveria ser só uns petelecos, acaba por virar um ato de selvageria. O bandido está morto, linchado. E todos aqueles que participaram do ato, inclusive os que não queriam matá-lo, como é o caso daquela dona de casa, são culpados e tão criminosos quanto o bandido morto.

A imagem descrita nos dois parágrafos acima não faz parte de uma crônica policial nem tão pouco ocorreu de fato por esses dias. Faz parte de uma imagem a qual recorreu o deputado federal Ciro Gomes (PSB-CE), durante sua última passagem pelo Acre, nesta última sexta-feira (24/04), para falar sobre o comportamento da imprensa brasileira e a onda de denuncismo envolvendo o Congresso Nacional e seus integrantes.

De acordo com imagem sugerida por Ciro, candidato a presidente da República em 2002 e que se declarou novamente candidato em 2010, o bandido linchado no caso é o Congresso Nacional e seus parlamentares. Os linchadores, os jornalistas – a imprensa brasileira, cuja campanha só favorece àqueles que defendem o fechamento do Congresso, a morte da democracia. N meio da denúncia contra congressistas e o parlamento brasileiro, todos querem uma lasquinha sem levar em consideração que todos os parlamentos do mundo, acrescentou Ciro Gomes, dispõe de cotas de passagens para os parlamentares e seus familiares. “Penso numa deputada do Acre, que tem um filho pequeno. Se ela não puder utilizar uma passagem para levar o filho para perto dela, como vai ser? Isso (a proibição do uso de passagem por familiares dos parlamentares) não existe em parlamento de nenhum país do mundo. Uma coisa é o uso da passagem desta forma e outra coisa é o cara malversar uma passagem, vendê-la…”, disse. A deputada a qual Ciro Gomes se referiu seria Perpétua Almeida, do PC do B do Acre. “Acho que todo debate é salutar, mas sem essa de faca no pescoço ou linchamento”, disse o deputado. 

Ciro Gomes fez a comparação das críticas ao Congresso com o linchamento de um bandido durante uma entrevista coletiva na sede do PSB em Rio Branco, na sexta-feira, um dia após ter repelido, inclusive com o uso de palavrões impublicáveis, informações dando conta de que ele estava envolvido no que a imprensa chamou de “farra das passagens”. Na quarta-feira, senadores como José Agripino (DEM-RN) e Epitácio Cafeteira (PTB-MA), haviam criticado a imprensa pelo que chamaram de onda de denuncismo. “A imprensa está numa onda de denuncismo que pode levar a fechar esta Casa do Congresso”, disse Cafeteira, traduzindo o que pensam muitos dos senadores e deputados como o próprio Ciro Gomes manifestou no Acre, segundo a imagem do linchamento a qual recorreu.

O deputado, no entanto, falou sobre outros assuntos. Disse, por exemplo, que a derrota do senador acreano Tião Viana (PT) na disputa pela presidência do Senado, em fevereiro deste ano, não foi uma derrota ou prejuízo específico do parlamentar. “Foi um prejuízo para o Brasil”, disse, ao falar da disputa na qual Tião Viana enfrentou, na expressão de setores da imprensa, os chamados coronéis da política nacional. “Ele foi uma vítima dos acordos da base de sustentação do presidente Lula com setores atrasados da política nacional. Uma vítima por ter tido a ousadia de disputar [a presidência do Senado] contra o poder”, definiu.

ASSUNTOS DA ENTREVISTA

Sobre a aliança do PSB com o PT e o PSDB em Belo Horizonte nas eleições municipais de 2008

“O que aconteceu lá foi um pouco conseqüência de uma demonstração de algo que veio lá de trás. Mas me deixe ir mais além: o PSDB era – era não, é! – um partido que tem uma boa média de decência, uma boa média de espírito púbico, uma boa média de imaginação em nível de Brasil. Digo isso porque ajudei a fundar o PSDB. Fui seu primeiro governador na historia. O primeiro e único eleito – nas eleições de 1990. O PSDB era uma idéia tão forte, mas tão forte que, pequeno como era logo chegou ao poder e acabou com 30, 40 anos de inflação no Brasil, com o Real. E nós ajudamos a fazer o Real, como ministro do presidente Itamar Franco. E fomos ao Poder. Quando chegamos ao Poder, o PT, que é um partido de média moral extremamente respeitável – cada um tem suas contradições, mas a média de compromisso com o pais é muito boa – mas o que faz o PT por causa da disputa com São Paulo? Nega diálogo com o PSDB. Aí o PSDB se atraca com o Brasil antigo, viciado, corrompido, fisiológico… a pretexto da governabilidade, de formar maioria no Congresso, essas coisas…Passa o tempo, o PT vai ao poder e o PSDB, por causa da disputa, nega diálogo ao PT e o PT é obrigado a se aliar ao mesmo Brasil antigo, sob os mesmos pretextos. Ou seja, muda para A, muda para o B mas o que não muda para o Brasil é esse grupo de políticos que acaba deformando o respeito que a população brasileira precisa ter em relação as suas instituições. Nós todos estávamos interessados em mostrar que isso faz mal para o Brasil. Foi o que fizemos em Minas. Conversamos, o PT – através do Fernando Pimentel, o Aécio [Neves, governador de Minas Gerais] pelo PSDB e o nós do PSB já tínhamos esse entendimento de que é preciso sairmos da disputa paroquial que envolve São Paulo para algo mais amplo como o Brasil. O que aconteceu lá foi uma aliança legítima e importante do ponto de vista estratégico.

O Acre e seu futuro

O Acre avançou muito nos últimos anos. Avançou muito politicamente, avançou também nos indicadores sociais. Eu tenho conversado muito com o ex-governador Jorge Viana, com seu irmão senador Tião Viana e tenho tido oportunidade de dizer isso a eles. O Estado avançou muito também economicamente e na infra-estrutura. Eu acho que vocês, acreanos, estão na iminência finalmente de um avanço histórico, em minha opinião. O Mato Grosso tem a agricultura mais pujante do planeta. Mas, para exportar, corre dois mil quilômetros até o Porto de Paranaguá, no Paraná. O território brasileiro, pelo imaginário do litoral, vira a Amazônia como o fundo do terreno. Finalmente – e isso não aconteceu por acaso – a Amazônia vai dispor de um porto, no Oceano Pacífico, a 700 quilômetros de distância, um caminho aberto pelo Acre. Isso é menos da metade do eixo logístico que serve ao Mato Grosso. Isso significa que vocês, do Acre, estão a três semanas de frete a menos do maior mercado emergente do planeta, que é China e toda a Ásia. Três semanas a menos de frete dos portos de Santos e Paranaguá significam que, para o Acre, em termos de desenvolvimento, o céu é o limite. É claro que para isso são necessários o planejamento estratégico, zoneamento ecológico, toda essa ferramentaria de um projeto de desenvolvimento tem que está aliado a um projeto de capacitação de recursos humanos para evitar que o Acre não seja só um corredor e que produtos como o tomate, como eu vi na última vez que vim aqui, não sejam, por exemplo, de São Paulo. Mas o fato é que o Acre, como o Ceará, pelas versões tradicionais de desenvolvimento, não tinham nenhum papel. Eram papéis irrelevantes. E agora vocês acreanos podem ter um papel estratégico e totalmente relevante para o país.

Aliança do PSB com o PT no Acre

O militante médio do PSB é uma pessoa decente, que resolve entrar para a política por idealismo. Nós não temos nada fisiologicamente falando. Normalmente, são profissionais liberais e pessoas angustiadas com as contradições da sociedade que vem ao PSB em busca de respostas. Se fossem fisiológicos, procuravam outros partidos aí dos muitos que o Brasil tem. Nós temos uma direção nacional muito tranqüila. Somos enérgicos quando é necessário, mas a gente não estupra a instância local. Aqui, nos entendemos que está tudo certo em termos de aliança com o PT. 

Aécio Neves no PSB para disputar a Presidência?

Se o governador Aécio Neves quiser se filiar ao PSB, ele será bem vindo, por sua história, por seus méritos pessoais. Mas o PSB tem um candidato à presidência da República, que sou eu. Eu quero ser candidato a presidente da República se o partido assim o quiser.

Vice de Dilma Roussef?

Eu quero ser candidato a presidente, como já disse. Se não der, a gente conversa de novo. Mas estou feliz no PSB.

Tião Viana na disputa pela presidência do Senado

Na verdade, na disputa, o Tião Viana foi uma vitima. É que, atrás da pretensão legitima dele, havia um acordo do PT com o PMDB. Então, nesse movimento decorrente do PT com um certo PMDB, a primeira vítima, a mais superficialmente, visível foi o Tião Viana. Mas, em relação a isso, não tenha dúvida de que a vítima maior foi o país.  

Colaboração Assessoria de gabinete do senador Tião Viana -(Tião Maia)